Sítio participa do VI Congresso Latino-Americano de Agroecologia

O Sítio Geranium participou do VI Congresso Latino-Americano de Agroecologia, realizado aqui em Brasília, de 12 a 15 de setembro. As experiências do Sítio  com Sistemas Agroforestais (SAFs); agricultura orgânica; utilização sustentável da água e Educação Socioambiental foram apresentadas no Congresso a partir de um artigo super bacana sobre o assunto. Confira o artigo!!

Tema Gerador: Manejo de Agroecossistemas e Agricultura Orgânica

Apresentação
Eu, Marcelino Barberato, sou agricultor há 30 anos aqui no Distrito Federal e desde 1986 vivo no Sítio Geranium, com minha esposa Maria Abadia Chaves Barberato e meus filhos, Luana Chaves Barberato e Thauame Chaves Barberato. Somos sócios fundadores da Associação de Agricultura Ecológica (AGE) e participamos da Associação dos Produtores do Núcleo Rural de Taguatinga (Aprontag), do Sindicato de Turismo Rural e Ecológico do Distrito Federal (Ruraltur) e do Sindicato de Produtores Orgânicos do DF (Sindorgânicos). 

Contextualização
O Sítio Geranium está no Bioma Cerrado e fica localizado no Núcleo Rural de Taguatinga, entre três das regiões administrativas mais populosas do Distrito federal: Taguatinga, Ceilândia e Samambaia. São mais de 1 milhão de pessoas que vivem nessa região e a pressão da urbanização no núcleo rural é muito grande.

Estamos inseridos na Área de Relevante Interesse Ecológico JK, as margens do Ribeirão Taguatinga na Bacia do Rio Descoberto. Os solos daqui são em grande maioria hidromórficos e latossolos amarelos, com uma concentração elevada de alumínio. Ao redor do Sítio, todas as chácaras estão loteadas e convivemos intensamente com os problemas como invasões e fogo vindo das práticas dos nossos vizinhos.

Eu nasci em Uberaba- MG e me formei em Engenharia Civil. Mudei para Brasília logo após o término da faculdade em busca de emprego e, após uma questão familiar importante, entramos em um momento de transição, abandonamos a vida de um condomínio fechado em Brasília para morar no meio do cerrado e iniciar a produção de alimentos orgânicos.

O aprendizado em agroecologia começou durante o I Encontro de Agricultura Alternativa da UNB, realizado em 1986.

Cada dia mais buscamos informações, experiência e grupos que tivessem ideais agroecológico e que nos ajudaram na implantação da agricultura orgânica e dos sistemas agroflorestais no Sítio. Aprendemos na prática diária dos conceitos e métodos aprendidos.

Desenvolvimento da experiência

No início trabalhávamos com produção orgânica, depois de um tempo descobrimos os Sistemas Agroforestais (SAFs) e nossa forma de interagir com a natureza mudou, passamos a produzir frutas, flores e outros produtos em lugares que antes não produzíamos e cuidar de todo o Sítio com um novo olhar, o olhar do cuidado.

Muitas ações sustentáveis começaram a ser utilizadas e aprofundadas no Sítio, entre elas:

Sistemas agroflorestais e plantios consorciados

Desde 2002 temos SAFs no Sítio e esses sistemas nos permitiram ter uma condição de solo diferenciada além de ajudar no controle de doenças e pragas. No Sítio não usamos nenhum tipo de caldas ou controle de pragas e doenças porque simplesmente não precisamos, pois, o equilíbrio ambiental dos nossos sistemas produtivos facilitam o controle natural.

Nos primeiros seis meses plantamos milho, feijão e mandioca. Depois fomos aumentando a diversidade e as formas de plantio. Hoje, o sítio produz de forma agroecológica mais de 30 itens, esse é uma das características marcantes da nossa experiência: a diversidade e sazonalidade dos produtos.

A lógica é inversa! Não forçamos a terra a produzir o que nós queremos consumir, procuramos consumir aquilo que a terra pode dar. A partir de setembro de cada ano, começamos a produzir morangos e jabuticabas, por exemplo, já em março temos laranjas e mexericas, alguns meses depois acerola e durante quase o ano inteiro temos as mais diversas espécies de bananas.

Produzimos hortaliças e verduras variadas, todas plantadas em consórcios espalhados pelos quase 14 hectares do sítio. Os talhões são todos em policultivos intercalados com sistemas agroflorestais ondem produzimos a maioria das nossas frutas. As agroflorestas permeiam as hortas trazendo inúmeros benefícios, como a melhoria da fertilidade do solo, retenção de água, quebra-ventos, reestabelecimento da microfauna do solo, além de criar uma espécie de microclima que ameniza a temperatura.

Além disso, produzimos também mais de 50 espécies de ervas medicinais, algumas espécies arbóreas nativas do Cerrado e espécies ornamentais no viveiro interno, todas produzidas de forma orgânica e certificada, já são mais de 15 anos de produção certificados por várias empresas em parceria com o SEBRAE/DF.

O cuidado com a água
Nós trabalhamos a terra, a água, a diversidade em harmonia, equilíbrio e respeito, cuidando da propriedade para cada dia o solo seja melhor.

Utilizamos caixas para captar e reaproveitar a água da chuva. A primeira caixa construída no Sítio Geranium tem capacidade para armazenar 20.000 litros de água, a partir de 1.600mm de chuva anual. Além disso, existem os chamados Círculos de Bananeiras que faz o tratamento da água cinza, proveniente da pia da cozinha do Sitio Geranium.

Outra tecnologia utilizada é o Tanque de Evapotranspiração que realiza o tratamento de água cinza (proveniente das pias e dos chuveiros) e negra (provenientes dos vasos sanitários).

Mais um cuidado com a água são os canais de infiltração e as bacias de contenção de água da chuva que são escavações longas e niveladas usadas para evitar que a água da chuva lave e leve as plantações, proporcionando uma melhor retenção de água no solo e a infiltração para o lençol freático.

O trabalho com abelhas nativas
A partir de 2014, começamos o trabalho de preservação das abelhas nativas brasileiras com a inauguração do Meliponário Educador. O objetivo foi de incentivar a criação e a preservação de abelhas nativas sem ferrão e polinização das espécies vegetais nas redondezas. Hoje temos dois meliponários com as espécies: Jataí, Jataí da terra, Mirim, Mandaguari, Moça branca, Marmelada, Mandaçaia e Iraí.

O cuidado com o futuro: nossas crianças
O Sítio é uma verdadeira sala de aula ao ar livre, as visitas, trilhas e oficinas pedagógicas são atividades importantes no que chamamos de Programa de Educação Socioambiental do Sítio Geranium. A partir de vivências ambientais, recebemos grupos de todas as idades para uma conexão especial com a natureza.

Em 2016, mais de 6 mil alunos de escolas públicas e particulares do Distrito federal foram fazer a trilha pelas hortas e agroflorestas do Sítio.

Desafios e Disseminação da experiência
Tivemos também, ao longo dos anos, os nossos problemas. Entre eles: as dificuldades técnicas próprias da produção, principalmente no início; a dificuldade de mão de obra qualificada para esse tipo de produção; a comercialização e escoamento da produção e a distância do Sítio até as principais feiras do DF.

O escoamento e comercialização da produção era feita nas feiras da AGE espalhadas por Brasília, a maioria delas no Plano Piloto. Foi com a ajuda da associação que muitos dos produtores agroecológicos conseguiam vender seus produtos e era nossa maior fonte de lucro.

Com muito trabalho e cooperação de todos os moradores, produtores e parceiros vencemos cada obstáculo e percebemos que quando acreditamos na metodologia e no que está sendo feito o conhecimento vai sendo construído em conjunto, trabalhar em grupo foi um diferencial para superar os desafios do processo.

Se antes nosso melhor ponto de venda eram as feiras, hoje o Sítio tem a Bioloja, um espaço de comercialização dentro da propriedade onde, duas vezes na semana, vendemos uma parte da nossa produção diretamente para o consumidor, sem intermediários e com preços mais competitivos.

O cenário atual é outro, a Bioloja se tornou nosso melhor ponto de venda. Além disso, abrimos espaço para que outros produtores da região possam oferecer seus produtos também na Bioloja, desde a produtores orgânicos de Samambaia e Taguatinga, até comunidades Quilombolas de Cavalcante (GO).

A verdade é que hoje não conseguimos produzir o suficiente para atender a demanda por produtos orgânicos no Distrito Federal.

No começo éramos poucos, cerca de duas famílias além da nossa. Hoje somos onze famílias que moram e trabalham no Sítio. Os homens trabalham na produção orgânica e as mulheres em atividades de manutenção do sítio, nos eventos, nos trabalhos pedagógicos e na Bioloja. Os adolescentes, a partir de programas como o Jovem Aprendiz, desenvolvem atividades em período contrário a escola.

A população está se conscientizando sobre a importância de se consumir alimentos produzidos de forma mais saudável e segura, podemos falar então que fazemos uma agricultura saudável e cada dia mais os agricultores estão migrando da agricultura convencional para a agroecológica e nós, junto com a AGE, fazemos parte dessa história.

As pessoas começaram a se interessar pelo sítio em busca de conhecimentos sobre agroecologia e sistemas agroflorestais. Essa busca gerou vários trabalhos de graduação, mestrado e doutorado, visitas de escolas e universidades, trilhas ecológicas, cursos, etc.

Com essa experiencia nós cuidamos da nossa primeira casa que é o nosso corpo, depois da segunda casa que é o nosso planeta e da nossa terceira casa, que é o universo. Promovendo saúde para nós, nossa família, nosso sítio, a comunidade ao nosso redor, nossos clientes, enfim, melhoria para toda a sociedade.

 

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